Diante da realidade do sofrimento, muitos são tomados por um espírito de revolta para com Deus, reclamando sua jurisdição, afirmando, mesmo que indiretamente, que quem sabe de fato ordenar as coisas é ela mesma e que o jeito do Senhor governar não passa de um estilo amador. Desta forma, em nossa débil humanidade, rejeitamos a jurisdição de Deus e nos colocamos acima de Sua Infinita Sabedoria e do Seu Incomensurável Amor. O curioso caso da criatura que se opõe ao seu criador.
Não poucas vezes, as pessoas não se dão conta de que grande parte de suas reações diante dos sofrimentos são de verdadeiro espírito de rebeldia diante da Santa Vontade de Deus. É como aquele pai amoroso que procura educar seu filho no caminho correto, de forma que para o guiar por uma via segura e acertada, inflige a ele repreensões e o instrui por um caminho de aceitação das adversidades, porém, por mais amoroso que o pai seja, o filho não compreende nestas ocasiões a realidade do carinho paterno para com ele, e desta forma recebe com rejeições, reclamações e birras aquilo que é fruto do cuidado do pai para com o filho.
Porém, mesmo diante desta nossa atitude, Deus “não nos trata como exigem nossas faltas” e, em sua grandiosa misericórdia, ao invés de tratar-nos com o desprezo que merecemos, nos convida a nos jogarmos sem reservas em seus braços e desta forma confiarmos plenamente que tudo o que padecemos concorre para um bem maior.
Nosso Senhor Jesus Cristo em uma de suas aparições a Santa Faustina Kowalska, revelou que uma das realidades que mais lhe causam tristeza ao coração são pessoas que desconfiam de Sua Divina Misericórdia. Quem desconfia da misericórdia inabalável de Deus, desconfia de Seu amor! Portanto, a partir do momento que reconhecemos o grande amor com que fomos e somos amados por Deus, o sofrimento em nossa vida toma um novo sentido: não se tratando mais de uma dificuldade imposta, mas sim um cuidado de Deus para conosco. Por mais que muitas vezes não compreendamos o porquê, nossa confiança nos faz acreditar que tudo concorre para o bem dos que amam a Deus, de modo que se Ele permite que aquilo padecemos, é porque deseja tirar um bem deste mal. Portanto, nunca nos esqueçamos daquela frase de São Pedro em sua primeira carta: “Confiai-lhe todas as vossas preocupações, porque ele tem cuidado de vós.” (1 Pd 5, 7).
Com este olhar renovado sobre a realidade do sofrimento, ao nos depararmos com as palavras “neste vale de lágrimas”, presentes na oração da “Salve Rainha”, constatamos que enquanto estivermos neste mundo, tribulações e sofrimentos estarão presentes em nossa vida, independente se formos católicos ou pagãos, porém, o que nos fará diferentes dos demais será como receberemos as dificuldades em nossa vida: se nos revoltamos contra Cristo, ao ponto de renunciar nossa Fé, ou se, como verdadeiros filhos amorosos de Deus, aceitamos com predileção aquilo que é do agrado de Deus para cada um de nós, de forma a nos dispormos tudo realizar e suportar por amor a Cristo. Este é o real ápice do amor: sacrificar suas vontades por outrem!
Mas esta verdade de que o sofrimento há de nos acompanhar por toda vida, não nos deve ser motivo para desistir de viver, pois, por mais duras que sejam as dificuldades e tribulações, a esperança do Céu, da felicidade eterna e gloriosa com Deus, nos impele a seguirmos em frente, sem duvidar de Sua misericórdia, para que firmados em sua graça que nos fortalece nos momentos de penúria e cheios de confiança, alcancemos o que fomos destinados desde todo sempre.
Desta forma, para que desenvolvamos essa profunda conformação com a Vontade do Senhor em nossa vida, nosso “dever de casa” não é outro senão cultivarmos nas ocasiões do dia a dia a virtude da paciência. É ela uma das mais magníficas e necessárias virtudes para alcançarmos a santidade, ao ponto que São Gregório Magno vai nos dizer que: “Todos os santos foram mártires, ou pela espada ou pela paciência”. Consiste em uma peça fundamental para chegarmos ao Céu, pois com ela recebemos de bom grado e com amor as adversidades. Comece desenvolvendo-a em ocasiões simplórias do cotidiano, para que aos poucos esta vá se estendendo às maiores dificuldades que se apresentam a nossa vida.
São Rafael Arnáiz Barón, um santo trapista do século XX, conhecido pelo seu profundo amor a Jesus, possui uma frase que diz: “E quem seria louco de querer o que Deus não quer!”. Portanto, diante dos sofrimentos e tribulações em nossa vida, não tenhamos outra reação senão aceitá-los, acolhê-los com profundo amor e paciência, confiantes na insondável Misericórdia de Deus para conosco, para que assim, conformados à Vontade do Senhor, possamos um dia chegar a eterna felicidade do Céu!
